Cognição no envelhecimento -
Durante o processo natural de envelhecimento, conforme já comentado, várias funções orgânicas mudam, gerando adaptações a uma nova realidade, com novas demandas.
Da mesma maneira que o vigor e a força em geral são reduzidos, a vida cognitiva também se altera.
As percepções da realidade vão transformando, as vias sensoriais transmitem sinais diferentes daqueles aos quais o indivíduos estavam adaptados 20 ou 30 anos antes. Os sabores, odores, sensações térmicas, destreza, posicionamento espacial. Todas essas informações passam a ser diferentes – parte porque as memórias do passado assumem características emblemáticas, e parte porque as vias de transmissão de informação já acumularam diminutos erros em número suficiente para gerar prejuízo de função.
Isto justifica o saudosismo tão comum, uma vez que indubitavelmente a impressão é que no passado tudo era melhor. Quem nunca ouviu a frase: "Esse sorvete não é mais como antigamente" ou "... no meu tempo se fazia batatas-frita de verdade".
Este mesmo saudosismo que se instala é acompanhado da falta dos amigos, da falta de interação produtiva com as gerações posteriores, o que tende a manter o foco da existência no passado. A dificuldade de comunicação com os descendentes faz com que seja mais difícil se relacionar com as novas tecnologias, o que invariavelmente gera medo – produto da ignorância.
Processo similar ocorre com a capacidade de juízo. Este depende de várias funções corticais superiores de análise, memória, e programação – capacidade abstrata de projeção, de previsibilidade –. Como a capacidade de analisar o mundo esta deturpada, pelo vínculo com o passado, pela dificuldade de entender o novo, somada a memória deficitária, este assume posições cada vez mais conservadoras, inflexíveis e repetidas. O que novamente amplia o isolamento social experimentado pelo idoso.
A memória, queixa mais frequente dos pacientes, é a função que mais evidentemente gera frustrações e não pode ser ocultadas dos familiares por muito tempo. Até o momento, sabemos que a formação de memória necessita de vínculo afetivo com o fato, e reverberações do evento. Evidentemente, para que se forme vínculo afetivo, a interpretação e adequado entendimento são fundamentais.
Esse é o motivo de os idosos que trabalham por mais anos, fazem atividade física, estudam por mais anos, possuem maiores círculos de relacionamentos têm menos efeitos sobre a memória, e sobre a cognição em geral. Como também usufruem mais vantagens nesse novo momento – instigante e desafiante. Viver com mais experiência, vicissitudes, tranquilidade, conhecimento de si e do próximo caracterizam vantagens extremas em um mundo cada vez mais competitivo, no qual o superficial é a regra. Invariavelmente a velhice é um sucesso evolutivo, pois a alternativa é não viver.
Importante salientar que a vida na velhice é um reflexo da vida antes da velhice. E que os processos descritos neste post são comuns ao envelhecimento normal, sem comorbidades ou eventos cataclísmicos.
Não existe manobras salvadoras, pílulas mágicas, massagens enigmáticas que consigam transformar uma vida mal conduzida em uma velhice plena.
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